15 de setembro de 2011
Ma chérie
"Quem é ela?" me perguntou um velho amigo, "Que faz ela?" perguntou-me o outro. Pensei e pensei, eu sabia a resposta, mas como simplificá-la? Ela é como um clarão no meio da noite, é como uma luz que brilha e entontece qualquer mente, é como um brilho cuja luz emanada te ofusca a visão, é como clareza que te cega ao ver. Durante o dia de sol, durante a noite escura, durante a manhã chuvosa, durante a tarde vermelha, você brilha, você inebria minha alma, povoa meus pensamentos, inspira minha escrita e não somente à ela, você inspira e fascina tudo aquilo que se faz presente em mim, desde o mais simples sorriso ou mais salgada lágrima até as mais profundas e complexas filosofias. Engraçado é como ela, de uma forma ou de outra, contradiz tudo que digo. Bonito, bonito é como tenta desarmar meus argumentos com seu pessimismo e desiste do mesmo em alguns instantes. Mal sabe que tremo só de pensar em seus contra argumentos, que sempre me paralisam e emudecem. Não sei ao certo o que é, se é ela, se é seu sorriso, se é o brilho dos seus olhos ou se é novamente o plano sentimental interferindo no físico. Mas quem é ela? Eu sempre acreditei que seu nome fosse esse, mas é aquele outro. Ah, brilho, como é lindo o seu brilho e sua luz. Sua presença desafia o tempo e o espaço, tudo desaparece com sua presença e o tempo voa na velocidade da luz, na sua ausência um dia se torna um século e o mundo parece pesado. Então, me perguntaram dela, me perguntaram quem era ela, quem era ela aquela que tanto me fazia sorrir. Eu lhes disse "Ela é criatura noturna. Ela é a contradição das minhas ideias e sou a contradição da mente dela. Ela é de quem gosto, e eu sou dela".
30 de agosto de 2011
Lait renversé
De poeira ele havia se sujado ao cair no chão e pela primeira vez não havia sido enxuto por pano sujo. Branco e doce, era o leite que a mulher amorosa havia preparado para os amorosos filhos e para o amoroso marido. Branco era a cor do ódio destilado dos que lhe seguravam a garganta agora. Doce era o que suas lágrimas não eram, e que grande ironia também eram, ela estava chorando sob o leite derramado pelas mãos brancas para as quais implorava pela sua vida. Branco era a cor de seu vestido rodado, comprado pelas mãos negras do seu amado esposo que a amava tanto, amado esposo que muito distante dali arrancava no chão uma flor branca para enfeitar os cabelos negros da amada esposa de bochechas cor de terra escura assim como os seus bonitos e brilhantes olhos, o amado esposo jamais havia deixado de vê-la como a coisa mais bonita que já havia visto na vida, o amado esposo desde a primeira vez que a vira sabia que a queria como sua amada esposa para toda sua vida. Branco também era a cor dos dentes expostos da amada esposa que agora gritava enquanto o ódio branco lhe tirava algo que antes era só de seu amado esposo, algo tão especial que a amada esposa havia decidido guardar e dar somente ao amado esposo desde a primeira vez que o havia visto colhendo algodão na fazenda de seu senhor. Naquele momento ela só conseguia pensar naqueles algodões brancos, por que o homem branco não era capaz de ser tão gentil como o algodão branco? Logo o amoroso marido chegava, mas que pena, as flores brancas ele deixou cair sujando-as de poeira. Os amorosos filhos também deixaram lágrimas caírem sobre elas assim como a amorosa mãe havia deixado sob o leite. Com os braços negros fortes, o amoroso marido pegou nos braços a esposa e a corda de seu pescoço tirou, deitou-a no chão e colocou as flores sujas em seu cabelo negro enquanto via sua casa de paredes brancas se tornar negra pelas mãos do fogo, fogo servo das mãos brancas regadas do ódio branco que matara sua esposa da cor de terra molhada.
26 de agosto de 2011
Disgracieux
Falava. Eu falava muito. Ela falava demais também, mas nada dizia. Só falava e falava. Falava palavras que mesmo com sentido não adquiriam nada. Era sempre concordância. Nada a completar e tampouco a adicionar. Não havia opinião forte nem fraca, era só opinião. Tudo o que eu dizia debatia sozinha, enfrentar-me ela não sabia, ela só concordava e mesmo em discordância, não teimava. Não tinha gosto de sal, mas também não tinha sabor doce. Nada de muito importante lhe era creditado, nada feito era motivado por força além da mecânica. Era tudo sempre a mesma coisa. Meus beijos sempre eram correspondidos, mas aonde estava a paixão? Ela me beijava e eu também a beijava, mas nada se sentia além do físico. Nada, era tudo maquinado e automático, tudo mecânico e sem fervor. Era linda, mas que graça ela tinha? Sua beleza era superior à de qualquer mortal, mas, novamente, que graça tinha nela? Era tão bonita e mesmo de traços incomuns, ela era comum. Não tinha sabor, não tinha fogo. Sempre era nude, nunca branco, nunca preto e nunca cinza, era só nude. Nada forte, nada destacado. Uma linda cor, mas uma cor tão neutra. Seu chá não era nem amargo e nem doce. Seus movimentos nem rápidos nem lentos. Eram só movimentos. Sua tristeza era a indiferença e seu amor também o era. Ela não tinha nada a acrescentar, era normal e não sabia falar mais do que uma garota normal sabe. Parecia adestrada e alienada. Muito comum. Muito robótica. Que é que ela tinha? Ela tinha gosto neutro, ela era neutra e agia neutro. Ela era como água. Insípida, incolor, inodora. Não tinha forma. Não tinha nada de mais. Ah, eu a amava, mas ela era tão sem graça. Eu a amava, mas perto dela eu era mais vermelho que comum e perto de mim ela era nude demais.
20 de agosto de 2011
Those electric eyes
Bonito era o nascer-do-sol batendo na janela do nosso quarto ultrapassando as cortinas negras, fazendo o corpo pálido de Roxanne esconder-se debaixo das cobertas; vinha sempre junto do vento gelado das manhãs que fazia agora minha branca encolher-se. Cheiro de orvalho, cheiro de grama molhada e cheiro de azul índigo. Seu nariz, arrebitado, beijei e levantei por fim. Uma regata preta combinando com a lingerie de poliéster preta, abri então toda a casa e deixei a manhã tomar conta dela. Baguncei meu cobre cabelo, o nariz torci e por fim bocejei. Coloquei a água pra ferver, fatiei o pão e sobre a mesa a manteiga coloquei. Feito o café, escutei mimosos passos de minha pequena, esquentei então o seu leite, feito isso, servi em sua xícara branca internamente preta que combinava exatamente com a minha preta de interior branco e carregando café preto. Bonitos eram os olhos da minha menina. Eram brilhantes, eram hipnóticos. Eram doces, eram gentis. Sentou-se, a camisola branca de renda contrastava bem com o cabelo castanho-escuro que agora refletia o sol, então, pegou a xícara e sem dizer uma palavra sequer, tingiu o liquido branco e quente com pegajoso âmbar para adoçar ainda mais a bebida já doce. Mas, ah! Os seus olhos! Olhos tão dela, olhos tão meus. São olhos seus, são faróis meus. A canela lancei no café puro, preto continuou, amargo continuou. É mel dela, é café meu. São os seus olhos castanhos, são os meus negros. É o mel dela, é o café meu. É seu beijo adoçando meu amargo, é meu amargo tirando o doce dos seus finos lábios rosados. Bonito mesmo era a forma como ela me completava e me deixava fazer o mesmo.
25 de julho de 2011
Still a little bit delirious
Gosto tanto de vê-la andar. É tão determinada, tão dona de si, tão cheia de arrogância. Vive em seu mundo paralelo cheio de lírica e esquece-te de nós, meros mortais, que desejamos tanto ouvir a tua doce voz. Dona. És assim que a conheço, Dona. Você vem, parece tão destinada a quebrar as linhas invisíveis do tempo, tão destinada a me fazer parar de pintar o quadro presente com as cores do passado. Você vem, vem tanto para bem quanto para mal, mas dos venenos é o seu gosto o melhor. Você se parece muito com uma adega de vinhos, tão cheia de tantos diferentes fracos de tão diferentes cores, mas no fundo, todos tem o mesmo sabor e o mesmo veneno mortal. Te peço, por favor, Dona, não manche este chão com sangue. Mate-me lentamente e sem dor, de forma que eu mal perceba. Consegue sentir minha querida? Os sons estão florescendo em teu corpo esguio de sombra negra. Você é forte. Você parece forte, mas minha adorada, és tão frágil por dentro. É pura poesia, poesia sentimental de alguém que ainda não teve o prazer de sentir de verdade. Você vaga toda noite em cima de minha lápide, mas nunca olhou para minha cova abaixo de ti. Se alguém me pedisse um conselho sobre ti, diria para que se mantivesse orgulhoso, mas como sugerir à outro que mantenha o orgulho quando eu tenho a cabeça totalmente virada por tua causa mulher? Minha vida é tão incompleta, meus anéis de ouro eu vi ruir com a água da chuva, minhas jóias estão amarradas aos meus pés e me fazem afundar mais rápido nas águas profundas que são seus olhos. Mas ah, quanta ironia. Teus olhos são a noite mulher, são tão negros quanto ela e tem o mesmo brilho que todas as estrelas teriam se um dia se reunissem. Olhe para mim, eu quero que me sinta, eu quero que me culpe pelos seus erros, quero que diga com desdém meu nome e grite o quão suja é minha alma. Humilha-me, rasga-me, me enche de pecado e abusa de meu sexo como o cliente da prostituta, seja minha mulher e me faça a sua mulher, venha! Cuspa em minha cara e ofenda-me! Grita! Xinga! Destrói meu nome e destrói meu peito, mas satisfaz meu corpo e alma poeta com suas rimas sádicas e falsamente românticas. Vem, pássaro negro, invade meu quarto e minha cama, deita-te sob meu teto e conta as rachaduras de meu peito comigo. Joga-me na lama e me chama de imunda, de traste, faz de mim tua escrava, faz de mim tua cólera! Tire o resto de luz que ainda tenho. Você não sabe, mas eu vejo que é este jogo que você está jogando comigo. E adoro-o.
24 de julho de 2011
How can anyone feel so wild?
Preto, meu bem. Sua cor é preto. É preto minha adorada, preto é a cor de tua alma. Se esconde com o véu da noite, ampara-te na luz da lua e então acha que ainda não notei que você se esconde é do sentir. Descobre teu rosto e deixa-me ver em teu olhar gelado o quão és grandiosa. Tu me inspiras adorada, talvez até me instigues, talvez até me desafie sem ver a tê-la. Teus olhos são assim, são cor de noite, são negros como tua alma, negros. Estes teus olhos escuros, adorada, ah, estes seus olhos. Eles me hipnotizam, me elevam e me fazem lembrar a forma da lua cheia, mas veja só, são um eclipse. São escuridão rodeada por luz. É impossível ver o luar e senti-lo banhar minha pele sem me lembrar de ti, são tão geladas, você e a lua. Ambas exercem sobre mim um fascínio colossal, sinta-te honrada quando ouso dizer que os teus gracejos me encantam mais do que o brilho da lua, tamanha a vossa majestade minha adorada. Sua forma de gesticular, vossos desejos e ideologias, a tua filosofia e trejeitos, mulher, como poderia eu não te adorar? Como quisera eu ainda ver mais beleza no infinito céu acima de mim, mas teu sorriso me inebria; quando abre os lábios rosados e começa a falar, meu bem, não há nada que roube mais minha atenção que as suas palavras. Vossos passos assim, tão confiantes e tão ousados, são tão cheios de arrogância e ferocidade quanto você é. Mas ah, seus lábios, como eu conseguiria tirá-los da minha cabeça? Teriam eles o gosto de baunilha que o seu aroma tem minha adorada? Seriam de sabor tão complexo quanto vossas palavras? Com vossa inteligência tu me desafias em todos os instintos e com destreza maestral desmonta meus argumentos, mulher, me entontece com tamanha verbalidade e eloquência. Mas oh! Como me devora o desejo repentino de ter ao meu lado, adorada. Não como minha mulher, não em meus braços e não como minha amada. Ah, não, quero-te como lua, adorada. És tão escura e fria quanto a noite, como consegues ser a lua devastando as trevas de minh'alma? Como ilumina tanto minha mente se não tem luz sequer para abastecer à si própria adorada? Em tua falta de rumo, encontro-me e em teus delírios, desejo me fazer presente, desejo me fazer estrela pairando ao lado de vossa grandeza. Amada, seja minha e prometo o céu lhe dar, as respostas dar e os poemas mais pelos recitar. Seja minha musa e minha poetisa e serei eu a vossa maior admiradora, vossa escrava, vosso escuro de onde tirarás força e onde brilharás.
23 de julho de 2011
Je comprends, mon amour
De que cor ele é? Aquele meu coração, anjo. Aquele que roubou de mim. Você tomou de mim aquilo que eu sequer sabia existir, meu anjo. Eu nunca o havia sentido fazer algo mais além de bater, então, os seus olhos cor do mar me fizeram senti-lo sangrar. Você o roubou. Tirou de meu peito com tanta força e rapidez que nem mesmo sua cor eu pude ver minha amada. Numa caixa você o trancou e na estante fez questão de colocar exibindo-o como troféu, exibindo-o da mesma forma que se exibe a galhada do abatido cervo. Mas meu anjo, você nem mesmo lembra de quem é o coração, você nem do meu nome se recorda. Como cinzas no vento eu sumi e desvaneci de sua memória, eu me desfiz para você, mas amada, você esqueceu-se de deixar-me fazer o mesmo. Fugiu assim sem explicação, meu anjo, e levou contigo meu coração, fazendo-se então eterna dona dele e de sua posse ele é hoje, sempre será, até que tu me devolvas meu frágil e fraco coração, que sequer bater dá conta. Se não o quiseres, devolva-me e com a dor viverei em paz. Desapropria-se dele, anjo, deixa ele voltar pro meu peito saudoso. Um dia talvez consigas enxergar, menina, eu sempre entendi porque fostes, eu só esperei que um dia achasse a tal razão poderosa o bastante para fazer-te ficar aqui no encaixe do meu abraço, que é o seu lugar. É o mar o brilho dos seus olhos anjo, é o mar nos seus olhos. É o mar destes teus olhos enfeitando o vosso nome, é o mar dos olhos teus. É maior que o mar que enfeita vosso nome e brilha dos teus olhos, meu amor, é maior que todo este mar a dor que causou ao ir embora. Maior que estes mares, somente é a minha vontade de que voltes com meu partido coração na caixa, disposta a deixá-lo viver em mim, disposta a cuidar dele. É maior que todos esses mares, meu anjo, a saudade que ocupa meu peito no lugar onde antes batia o meu coração, agora trancado em vossa caixa, anjo.
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